Nascida e criada no território Puyanawa, em Mâncio Lima, Caroline Lima faz artesanato desde os nove anos de idade. Naquele tempo, cerca de quinze anos atrás, a maior parte das casas da aldeia ainda não tinha internet e a prática artesanal surgia como uma forma de entretenimento noturno ao lado de tios e primos. Carol guarda com afeto essas lembranças, quando as conversas em família preenchiam as noites.
No início, as peças produzidas serviam como enfeite para festas realizadas no território. Mais tarde, se tornou também uma fonte de renda. Na adolescência, Carol começou a vender as peças de arte. Ela conta que sempre teve muita facilidade para aprender, apenas observando outra pessoa fazendo uma única vez. As peças produzidas não são meros adereços comerciais para os Puyanawa pois cada elemento carrega um significado. Tudo que é produzido, é atravessado por afeto e por uma espiritualidade profundamente conectada à natureza:
“Então isso se tornou uma forma de a gente ganhar a renda, mas sempre a gente trabalhou por amor mesmo, porque a gente gostava mesmo. E a gente também tem essa ligação espiritual da gente, que a gente bebe medicina, ayahuasca, e toda vez que a gente bebia, se conectava mais com a natureza, a gente se inspirava mais”.
O comércio se deu de forma orgânica, acompanhando o aumento das visitas de pessoas interessadas na cultura indígena. Esse movimento fortaleceu uma rede de artesãos e artesãs na aldeia, como é o caso da família de Carol: sua mãe e suas irmãs também produzem peças.
A maior parte das peças comercializáveis são feitas de miçanga, ou seja, de material comprado. O motivo, segundo Carol, é diminuir o impacto ambiental ao evitar retirar grandes quantidades de matéria-prima da floresta. Os artesanatos feitos de matéria prima local são destinados ao uso pelos próprios indígenas nas festas e rituais.
“Mas a gente coloca ali nossas cores, nossas pinturas… Mesmo sendo um material comprado, vai carregar um significado, porque a gente passa semanas fazendo, tecendo. A gente usa a criatividade para pensar, para criar. E tudo tem um custo também. Às vezes o custo é a nossa paciência, a nossa criatividade.”
Durante o festival Atsa Puyanawa, evento tradicional que ocorre anualmente no território, a família de Carol monta sua própria casinha de artesanato para expor as peças. Mas nem sempre foi assim. O uso dos conhecimentos tradicionais e ancestrais precisou ser recuperado, principalmente por parte da juventude:
“E ao contrário da tradição que os mais velhos vão ensinando, eu que fui ensinando muita coisa para as minhas irmãs, do que eu ia aprendendo. Eu tinha muita amizade aqui com meus primos dessa aldeia de Ipiranga, e aqui eles dominavam muito mais do que na nossa outra aldeia. E assim eu fui aprendendo.”
Carol sustentou-se com o artesanato até os 20 e poucos anos mais ou menos. Depois, entrou para a faculdade de enfermagem, mas optou por não dar continuidade. Encontrou-se na agroecologia, inspirada pelos tempos da infância em que passou com seu pai, que é agricultor.
Além de artesã e trabalhar com agroecologia, Carol também carrega o dom da comunicação. Afinal, gosta de contar histórias desde pequena. Desde pequena gostava de contar histórias; agora, transforma essa vocação em ferramenta de preservação da memória e da cultura de seu povo. Seja em vídeo ou fotografia, registra rostos, cantos, rituais e modos de fazer. Também se dedica a criação de uma rede de comunicadores em seu território, para que o mundo possa enxergar, pelas lentes e pelas palavras dos próprios Puyanawa, as riquezas do saber e das práticas que sustentam seu modo de vida.

