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Liderança do Gibrié: uma história de resistência e sustentabilidade

Desde muito cedo, Mário Santos, também conhecido como Mário Assunção do Espírito Santo, aprendeu que ouvir era um ato de resistência. Filho de Raimundo Coutinho do Espírito Santo e Joana Assunção do Espírito Santo, e descendente direto de Silvia, neta de Manoel Joaquim dos Santos, mulher que deu origem ao Quilombo Gibrié de São Lourenço, em Barcarena (PA), Mário carrega em sua trajetória a memória viva de um território marcado por ancestralidade, luta e permanência.

Nascido em 1975, Mário começou a acompanhar o pai e os tios nas reuniões e articulações políticas ainda aos oito anos de idade, quando o território quilombola foi desapropriado durante a ditadura militar, por meio de um decreto assinado pelo então presidente João Figueiredo, para a implantação do que hoje é conhecido como Projeto Albras/Alunorte. À época, as crianças não falavam — ouviam. Era assim que se aprendia. Na tradição de povos descendentes de africanos e indígenas, a palavra é dos mais velhos; aos mais novos cabe escutar, guardar e seguir.

A desapropriação impôs um período de cerca de dez anos de afastamento forçado do território: a comunidade foi impedida de plantar, caçar, pescar e se alimentar da própria terra. Mario ressalta que existe uma disparidade de poder entre a população Quilombola e as grandes empresas:

“E a luta por direito, ela é uma luta muito árdua, muito dolorosa e injusta. Por quê? Porque os grandes projetos, eles possuem a carta de licença com uma semana, três dias. Nós não não possuímos o reconhecimento do nosso território. Nós já vamos para mais de 40 anos querendo a retomada do nosso território, ele é titulado desde 1838”.

Ao longo desse caminho, Mário acompanhou o falecimento de lideranças fundamentais da comunidade. Assumiu diferentes funções na organização do quilombo — secretário, presidente do conselho fiscal, vice-presidente — até chegar à presidência da Associação Quilombola e Indígena Gibrié de São Lourenço (ACOQUIGSAL), hoje responsável por articular a defesa de um território que reúne mais de 350 famílias.

Ser liderança, para Mário, nunca foi um lugar de conforto. É um exercício constante de renúncia: ao lazer, ao convívio familiar, à própria segurança: 

“Esta liderança, ela nem sempre é fácil. Por quê? Porque a gente tem que abrir mão de muita coisa, abrir mão de lazer, muitas das vezes, abrir mão da família e a família não entende. Eu já estou há 10 dias longe de casa (…) A gente também, muitas das vezes, é ameaçado de morte, né? No entanto, essa ameaça não nos cala, ela não nos intimida”.

Para Mário, defender o território é garantir o direito das próximas gerações de existir com dignidade. É assegurar que filhos, netos e bisnetos possam viver a Amazônia em sua plenitude — acessar os rios, produzir seus alimentos, manter os modos de vida tradicionais e exercer sua identidade cultural. Essa defesa também afirma o protagonismo das mulheres quilombolas e o direito coletivo de produzir, cuidar e permanecer no território.

Ao reivindicar o direito de cuidar da Amazônia, Mário reafirma um saber ancestral. Para ele, práticas como a agrofloresta fazem parte da vida dos povos tradicionais há milênios, e a preservação ambiental está diretamente ligada à permanência dessas comunidades em seus territórios. Nesse sentido, a defesa do Quilombo Gibrié de São Lourenço também é uma defesa da floresta e da vida.

“Por que a gente luta? A gente luta porque não é só por nós, a gente luta pelas próximas gerações. O meu bisneto, ele tem o direito de ver a Amazônia que eu vi. Os meus sobrinhos, netos, bisnetos, meus sobrinhos bisnetos, eles têm o direito de tomar banho no rio, assim como eu tive”.