No Quilombo do Curiaú, em Macapá (AP), o som do marabaixo não é apenas música. É memória, é ensinamento, é um modo de existir. Foi nesse território, atravessado por saberes ancestrais e práticas coletivas, que Cleane Ramos construiu sua trajetória como jovem quilombola, percussionista, cantora, dançarina e ativista cultural.
Aos 23 anos, Cleane carrega no corpo e na voz um legado que começou cedo. O primeiro contato com a percussão veio dentro de casa, ainda criança, observando o avô tocar a caixa de marabaixo. “Eu sentava do lado dele só para ouvir”, lembra. Foi ali, entre o quintal e o som do tambor, que ela aprendeu os primeiros toques, ainda com cinco ou seis anos de idade. Aos nove, já estava inserida nas rodas junto com os mais velhos da comunidade.
A formação cultural de Cleane se fortaleceu na Escola Estadual Quilombola José Bonifácio, no próprio Curiaú, onde estudou desde o pré-escolar. Foi ali que o projeto “Curiaú, Mostra Tua Cara” se tornou um divisor de águas. Mais do que uma atividade pedagógica, o projeto afirmava o território como espaço de conhecimento, reunindo cultura, agricultura, religiosidade, história oral e saberes tradicionais como o uso de plantas medicinais, o trabalho das parteiras e das benzedeiras, ainda presentes na comunidade até poucos anos atrás.
Esse processo formativo ajudou a construir algo fundamental: o sentimento de pertencimento. Jovens quilombolas passaram a se reconhecer como protagonistas de sua própria história, capazes de dizer com orgulho de onde vinham e quais saberes carregavam. Cleane foi uma dessas jovens.
Aos 13 anos, participou do Festival Cantando Marabaixo, reunindo marabaixeiros e marabaixeiras de diferentes comunidades, cada uma com seu toque e sua identidade. Foi uma das compositoras mais jovens da edição e testemunhou, naquele mesmo festival, outra criança quilombola vencer, mostrando que o futuro já estava em movimento.
Mas o caminho não foi simples. Dentro do próprio território, Cleane e outros jovens enfrentaram barreiras geracionais. Nas rodas tradicionais, cantar e tocar ainda era visto como um espaço restrito aos mais velhos. Crianças e adolescentes, quando muito, dançavam. Quando tentavam ocupar o microfone, ouviam que “não sabiam” ou “não tinham domínio”.
Foi desse incômodo que nasceu um movimento juvenil dentro do Curiaú. Cleane e outros jovens passaram a se reunir, estudar as músicas, praticar os toques, compartilhar conhecimentos entre si. O bisavô de Cleane, João da Cruz — mestre da Folia de São Joaquim e referência cultural da comunidade — foi uma presença fundamental nesse processo. Ele lembrava sempre: se a juventude não assumisse a responsabilidade de cuidar da cultura, um dia ela poderia se perder.
Aos poucos, o que era resistência virou transformação. As rodas começaram a mudar. Jovens passaram a ser chamados para cantar, tocar e se apresentar junto com os mais velhos. O que antes era hierarquia rígida tornou-se troca. Hoje, Cleane reconhece: o bloqueio foi quebrado.
“Eu vejo as sementes que a gente plantou germinando”, diz. A juventude do Curiaú já ocupa espaços, inspira crianças e constrói novas formas de continuidade cultural. Cleane se reconhece como parte dessa virada — não como alguém que substitui os mais velhos, mas como ponte entre gerações.
Para as juventudes que vêm depois dela, o conselho é direto: reconhecer-se como protagonista da própria história. “Um povo sem cultura é um povo sem identidade”, afirma. Para Cleane, saber de onde se vem é o que permite escolher para onde se vai. É esse enraizamento que dá força para inovar, buscar o novo e enfrentar os desconfortos do processo.
A história de Cleane Ramos mostra que tradição não é passado parado. No Curiaú, ela pulsa no corpo jovem, no tambor que muda de mãos e no futuro que se constrói coletivamente no ritmo firme do batuque e do marabaixo.

