Nascido e criado em um Seringal, Jean Pereira vive até hoje na Reserva Extrativista Chico Mendes, próximo a cidade de Xapuri, no Acre. Seringais são territórios repletos de árvores seringueiras das quais se extrai o látex para fabricar borracha e derivados. Na época de seu nascimento, devido às dificuldades de deslocamento, era pouco comum as mulheres da zona rural recorrerem às maternidades para terem seus filhos. Foi o caso da mãe de Jean.
Hoje em dia, pai de dois filhos adultos e avô, Jean dá continuidade à luta protagonizada por Chico Mendes em defesa da floresta amazônica e pelos direitos dos povos que a habitam, como é o caso dos seringueiros, indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
É ao lado de seu Raimundão, primo de Chico Mendes e liderança comunitária, que Jean atua como vice-presidente da associação Associação dos Produtores e Produtoras Agroextrativistas do Seringal Floresta e Adjacentes, a Aspafa. Também integra o núcleo de base da comunidade Rio Branco, responsável por representar os interesses dos moradores.
Desde jovem, Jean trabalha com extrativismo, cortando seringa e coletando castanha. Atualmente ele tem participado de um trabalho inovador junto do Ateliê da Floresta: uma marcenaria comunitária que produz artesanato com madeira de reaproveitamento.
“Não derrubamos uma árvore viva para fazer as peças. A gente só trabalha com madeira que tá morta, que já tá caída.”
Dentre as peças produzidas estão bonitas gamelas, de diferentes formatos e tamanhos, colheres de pau, biojóias e outros artefatos. Além de sustentáveis, as peças são feitas com muito cuidado e dedicação. Jean faz questão de ressaltar que tudo que é construído na comunidade é fruto de trabalho coletivo:
“Tudo foi conseguido através da associação… do povo junto a comunidade. Não é só um, nem dois, sempre é o povo junto para dar força para conseguir os objetivos”.
Morador da floresta desde que nasceu, Jean tem observado o impacto das mudanças climáticas nos ciclos da natureza. Ele nota uma forte mudança no regime das chuvas, por exemplo, principalmente nos períodos de forte desmatamento e queimadas. Embora seja proibido desmatar na Reserva Chico Mendes, infelizmente algumas pessoas violam as leis e regras em busca de lucro. Jean observa que aqueles que tentaram atuar como fazendeiros, desmatando para fazer pastos, já não conseguem mais extrair látex das seringueiras, nem castanha para alimentação. O extrativista relata ter recebido algumas ofertas para vender suas terras, algo que nunca aceitou por entender a importância de preservar esse território.
O trabalho comunitário realizado pela associação da qual Jean faz parte, mostra que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé. Esse é o caso do Ateliê Floresta, um exemplo de alternativa sustentável que não desmata, mas sim, reaproveita para produzir.

