Sueli Murici é agricultora, liderança comunitária e referência na luta pela autonomia das mulheres no Assentamento do Piqueazal, em Mazagão (AP). Mãe de quatro filhos e avó, sua trajetória é atravessada pelo trabalho no campo, pela organização coletiva e pela defesa do direito das comunidades rurais a permanecerem e prosperarem em seus territórios.
“Eu sempre digo que liderança comunitária não é algo que a gente vai atrás. A gente já nasce com isso. É nato”. afirma Sueli, que atua há mais de 23 anos no movimento social. Há 15 anos, é fundadora e presidenta da Associação de Mulheres Agricultoras do Assentamento do Piqueazal e Ramal do Camaipi (AMAPEC), uma iniciativa criada para fortalecer a geração de renda e a permanência das famílias no território. A associação atua com diferentes frentes produtivas, como a agricultura familiar, a costura e o acesso a políticas públicas como o PNAE e o PAA. Por meio de projetos e parcerias institucionais, as mulheres conquistaram máquinas de costura, equipamentos de mecanização agrícola e sistemas de irrigação voltados à horticultura, respeitando as nascentes e o modo de vida local.
“Muitas mulheres dizem ‘eu não trabalho’, mas quando você olha a rotina delas, vê que trabalham desde a madrugada. O que faltava era visibilidade e reconhecimento”, destaca a agricultora.
Sueli também é vice-presidenta do sindicato, integrante do Conselho Nacional da População Extrativista (CNS), técnica de enfermagem e estudante de licenciatura em Pedagogia. Para ela, a educação é parte central da luta comunitária:
“Estuda, mas volta para tua base. Quem fica no território vai precisar do teu conhecimento”.
Essa visão também orienta a relação com os filhos, que hoje acompanham e participam das ações comunitárias. “A gente precisa deixar um legado, para que eles vejam que a nossa luta não foi em vão.”Sua atuação se fortalece a partir da articulação com outras organizações do território, como a Associação Nossa Amazônia, com quem constrói ações conjuntas voltadas ao empreendedorismo comunitário, à autonomia das mulheres e à formação política. “Essa relação entre as associações funciona como um elo. A gente se fortalece juntas”, afirma.
Como facilitadora do projeto Conexão Povos da Floresta e participante da Rede Comunitária Floresta Digital Sueli acompanha conquistas importantes para a comunidade, como o acesso à conectividade, equipamentos de saúde e formações em comunicação comunitária. “Quem tem que contar a nossa realidade somos nós. De dentro para fora, e não do jeito que os outros querem contar”, defende.
A história de Sueli Murici é marcada pela certeza de que o trabalho comunitário transforma realidades. “A gente não está aqui só de passagem. A gente está fazendo um diferencial”, resume. Sua trajetória expressa a força das mulheres amazônidas e a potência da organização coletiva como caminho para construir futuro no território.

