Regina Célia Santana da Silva, conhecida como Regina Silva, tem 60 anos e é uma das lideranças do Quilombo Gibrié de São Lourenço, localizado no município de Barcarena (PA). Filha de produtores rurais, sua trajetória é marcada pela luta pela terra, pela organização comunitária e pela defesa da existência quilombola diante de processos históricos de expulsão, violência e violação de direitos que atravessam seu território desde a década de 1980.
“Quando o território foi invadido, a gente foi praticamente expulso. A luta era a mesma, mas a gente lutava sozinho. Com o tempo, entendemos que estava errado e que era preciso lutar juntos”, relembra Regina, ao falar sobre os primeiros enfrentamentos vividos por sua família e pela comunidade.
Desde muito cedo, ela acompanhou de perto a resistência das mulheres do território, especialmente de sua mãe, que garantiu a sobrevivência da família diante da repressão policial, da precarização extrema das condições de vida e da ausência do Estado.
“Minha mãe apanhou, foi presa, porque entendia que aquilo estava errado e reagia”, afirma. Essas experiências moldaram sua compreensão sobre justiça, direitos e a importância da organização coletiva.
Ao longo dos anos, Regina esteve diretamente envolvida na criação e fortalecimento da associação comunitária do Quilombo Gibrié de São Lourenço, bem como na articulação com redes, parceiros e organizações de apoio. O acesso à formação política, jurídica e comunicacional permitiu que a comunidade ampliasse sua capacidade de incidência institucional.
“Hoje a gente discute com advogado de igual para igual. Não somos advogados, mas temos conhecimento. As redes e os parceiros nos fortaleceram muito”, destaca.
Atualmente, Regina atua de forma central no desenvolvimento do Turismo de Base Comunitária no território, entendido como uma estratégia de geração de renda, valorização cultural e afirmação da identidade quilombola. A iniciativa mobiliza mulheres, jovens e pessoas idosas, envolvendo produção de alimentos, limpeza de caminhos, transporte fluvial, apresentações culturais e a valorização dos saberes locais.
“Cada talento dentro da comunidade é apresentado no turismo. Isso dá voz e faz as pessoas existirem”, afirma.
Além do turismo, Regina participa de iniciativas socioprodutivas ligadas à meliponicultura com abelhas nativas, à produção de própolis, frutas, açaí, cacau, cupuaçu e plantas ornamentais, sempre com foco em práticas sustentáveis e no respeito aos ciclos da natureza. Essas atividades fortalecem a economia local e reafirmam os modos de vida tradicionais do Quilombo Gibrié de São Lourenço.
Guardando os saberes herdados de sua avó, Regina também desenvolve um trabalho reconhecido com cachaças saborizadas artesanais, produzidas a partir de frutos do território e com rigoroso cuidado com a qualidade.
“Eu não me preocupo em vender muito, eu me preocupo em vender coisa de qualidade. A primeira impressão é a que fica”, afirma.
Seus produtos já ultrapassaram fronteiras, chegando a outros estados e a países como Alemanha e Espanha, tornando-se símbolos de identidade, memória e excelência comunitária.
Para Regina, um dos principais desafios atuais é o engajamento da juventude na continuidade da luta quilombola.
“Eu queria que os jovens se vissem como parte dessa história, que respeitassem quem lutou antes. Muitas pessoas morreram sem ver o resultado da luta”, reflete. Ainda assim, ela reconhece que hoje as estratégias são outras: “São outras armas, outros caminhos: o conhecimento, as redes de apoio, os parceiros”.
A trajetória de Regina Silva expressa a força das mulheres quilombolas da Amazônia, a centralidade da memória na defesa do território e a construção cotidiana de alternativas econômicas e políticas enraizadas na coletividade, na cultura e na justiça social.

