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Antonina Cunha e luta ribeirinha por uma conectividade significativa

Antonina Cunha não nasceu em  comunidade ribeirinha, mas adotou uma como lar. Natural de Belém, capital do Pará, ela vive atualmente com o marido e os filhos em Acará-Açu, localizada às margens do rio Acará, no município de Acará. 

Antonina chegou no território aos 19 anos, junto do marido e a filha, que na época tinha apenas seis meses. A mudança foi motivada pelo alto custo de vida na capital. Mas em pouco tempo, se viu apaixonada pelo modo de vida ribeirinho: 

Sou ribeirinha, com muito orgulho, com muita alegria.

E esse orgulho não é apenas da boca para fora. Além de trabalhar com serviços gerais e participar do conselho da escola local,  ela também luta pelo bem estar da comunidade, atuando como secretária na Associação de Moradores e Agricultores Padre Alberto Pirabon, A organização foi reativada em 2021, após ficar um tempo sem mobilizações. O objetivo é servir de ponte entre as iniciativas socioprodutivas locais para que possam colaborar entre si e alcançar mais visibilidade. 

A minha relação com o território é muito essa busca de inclusão digital mesmo, de ver o meu território se desenvolvendo, ver a juventude do meu território se engajando em causas sociais, que vá buscar as políticas públicas, as coisas que a gente necessita e que muitas vezes não são mostradas, né?

Além de impulsionar o crescimento das iniciativas produtivas e estimular o engajamento da juventude, a Associação também busca fortalecer a subsistência da comunidade de forma sustentável. Afinal, diversos grupos locais estão mostrando que é possível produzir sem derrubar a floresta. 

Este é o caso de iniciativas como as Guardiãs do Cacau, um grupo de mulheres que produzem chocolate artesanal; o grupo de artesanato que utiliza matéria prima natural, também formado por mulheres; o grupo de agricultores que trabalha com agrofloresta e a organização Real Preserve que estimula a preservação ambiental através do esporte.

Em 2024, Antonina apoiou a inscrição da Associação no edital da Rede Comunitária Floresta Digital e, após a seleção, iniciou sua trajetória como coordenadora do projeto em sua comunidade. Foi a partir do seu envolvimento com a Rede,  que ela se inseriu de forma mais ativa nos debates sobre inclusão digital. 

Esse debate sobre internet e sobre conectividade significativa no nosso território. Até então… a gente era muito leigo em relação a isso. 

Embora o projeto tenha garantido a instalação de uma antena de internet no espaço comunitário da Associação, batizado de Cabana Digital, o alcance da rede ainda é limitado, e muitas famílias não conseguem acessar uma conexão de qualidade em suas próprias casas.

Antonina é uma das moradoras que vivencia diretamente os desafios causados pela falta de uma infraestrutura de energia e conectividade adequada em seu território. Estudante de Pedagogia, ela cursa a universidade a distância e, para garantir seus estudos, precisa arcar com uma mensalidade elevada para ter acesso a uma internet de qualidade onde mora.

Diante da ausência de políticas públicas efetivas para a inclusão digital em seu território e, atenta aos impactos de uma conectividade que não esteja comprometida com o bem comum, Antonina passou a se engajar ativamente no debate sobre redes comunitárias e conectividade significativa centrada nas comunidades.

A gente vê dados, a gente vê pesquisa, mas quando se fala em relação de ouvir pessoas do território amazônico, que vivem dentro da floresta amazônica, que são povos da floresta, povos que realmente vivenciam na pele as dificuldades de se ter acesso a qualquer política pública que seja, eu me sinto como se eu fosse uma única árvore em pé num deserto”. 

Recentemente Antonina participou do Fórum Brasileiro de Internet que ocorreu no final de maio deste ano em Belém, no Pará. Ela esteve presente em uma das mesas que debatia soberania digital e as políticas públicas de conectividade nos territórios. Sua fala não apenas denunciou a ausência dessas políticas, mas também reforçou a importância de que exista mais diversidade no debate a respeito da conectividade:

Eu me preocupo e percebo o quanto a gente precisa ocupar mais esses espaços. Nós que vivemos na floresta, nós que somos povos que estão ali, que habitam e que tem necessidades das tecnologias, mas de uma maneira consciente, de uma maneira crítica, porque se não for dessa forma, não faz sentido.

Dessa forma, Antonina permanece engajada na construção de alternativas que garantam não apenas acesso à internet, mas também soberania digital, autonomia comunitária e o fortalecimento de seu território.