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Josenite Santos: a força das mulheres que cultivam o território e a memória do Quilombo Gibrié

“Um dia não estaremos mais aqui, então que possamos ser sensíveis à nossa missão de cuidar desse chão, cuidar das pessoas, amar e respeitar, buscando sempre ouvir aqueles que menos são valorizados.”

A história de Josenite Gomes dos Santos, 58 anos, é também a história de muitas mulheres que ajudaram a construir e proteger o Quilombo Gibrié de São Lourenço, em Barcarena (PA). Filha de Rosilda dos Santos, neta de Luzia Santos e mãe de Hellen Santos, ela cresceu aprendendo que cuidar do território significa também cuidar das pessoas, da memória e das futuras gerações.

As lembranças da infância ainda permanecem vivas. Banhos de igarapé, frutos colhidos diretamente da mata, brincadeiras sobre os miritizeiros durante a maré seca e passeios de casco quando a água subia fazem parte de um tempo marcado pela liberdade e pela convivência profunda com a natureza. Mesmo enfrentando uma limitação física, Josenite nunca deixou de viver essas experiências.

“Nossa família era simples. Vivíamos da pesca, do extrativismo e da caça, sempre com responsabilidade, retirando da natureza apenas o necessário para sobreviver.”

Foi dentro de casa que nasceram os primeiros aprendizados que levaria para toda a vida: respeito ao próximo, humildade, honestidade e fé.

Sua avó, Luzia Santos, era parteira, benzedeira e lavradora. Muitas crianças da comunidade vieram ao mundo pelas suas mãos, enquanto as ervas medicinais ajudavam a cuidar da saúde do povo quilombola. Já sua mãe, Rosilda, tornou-se uma das principais lideranças do território. Além de participar da fundação da associação comunitária, ajudou famílias a acessar aposentadorias, consultas médicas e benefícios sociais, participou da construção da Igreja de São Tomé, do centro comunitário e das escolas do território, sem nunca abandonar o cultivo da terra.

Foi também nesse período que a comunidade precisou se organizar diante da chegada dos grandes empreendimentos em Barcarena. Com a instalação da empresa Vale na região, tornou-se necessário reunir documentos e comprovar que aquelas famílias ocupavam o território havia muitas gerações. Ainda criança, Josenite já acompanhava as reuniões comunitárias, escrevia atas, ofícios e cartas, contribuindo para o processo de organização e reconhecimento do Quilombo Gibrié de São Lourenço.

A educação sempre foi um sonho cultivado com persistência. Depois de aprender a ler em aulas particulares, iniciou os estudos aos oito anos. Mais tarde, enfrentou uma rotina exaustiva para concluir o ensino médio técnico: saía de casa antes do meio-dia, atravessava de barco, dependia de ônibus e caminhava longas distâncias para estudar à noite, enquanto trabalhava durante o dia em um supermercado na Vila dos Cabanos, distrito município de Barcarena (PA), localizado a cerca de 7 km do quilombo.

O sonho de ingressar na universidade precisou esperar. Somente em 2005, depois de anos conciliando trabalho e estudo, formou-se em Pedagogia. Ao longo desse período também realizou diversos cursos técnicos, especializou-se em Gestão de Suprimentos, concluiu um MBA em Gestão de Pessoas e construiu uma carreira profissional como compradora sênior e analista de contratos.

Mesmo trabalhando fora da comunidade, nunca deixou de colaborar com o Quilombo Gibrié.

Após a aposentadoria, intensificou sua atuação comunitária. Hoje é secretária da associação, integra o Projeto Abelhas e Flores, atua como facilitadora da Rede comunitária Floresta Digital e coordena administrativamente o podcast Vozes do Gibrié, além de buscar constantemente novas formações e parcerias para fortalecer iniciativas de geração de renda para as famílias quilombolas.

Para ela, a comunicação comunitária ocupa um papel estratégico na defesa do território.

“A comunicação garante que a voz da comunidade seja ouvida dentro e fora do território. Ela fortalece nossa cultura, nossa ancestralidade, ajuda a divulgar os produtos da bioeconomia e leva nossas propostas para quem toma decisões.”

É justamente nesse sentido que iniciativas como a Rede Comunitária Floresta Digital e o projeto Vozes do Gibrié ganham importância, ao estimular a formação de jovens comunicadores e valorizar os talentos existentes na própria comunidade.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. Um dos principais é ampliar a participação dos moradores nos projetos sociais e fortalecer a geração de renda por meio da comercialização contínua dos produtos produzidos no território.

Ainda assim, Josenite mantém vivo o sonho de ver o Quilombo Gibrié se tornar uma referência na preservação ambiental, na organização comunitária e na valorização da floresta.

“Sonho com uma comunidade que continue plantando, colhendo e cuidando da natureza com amor e dedicação, sendo exemplo para outras comunidades e mostrando que é possível manter a floresta em pé.”