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A travessia de Josias Sateré-Mawé pela educação e fortalecimento de seu povo

Para se tornar professor em sua aldeia, Josias Sateré-Mawé precisou, primeiro, sair do território onde nasceu. Aos 11 anos, deixou a Aldeia Ponta Alegre, às margens do Rio Andirá, no Amazonas, para acompanhar o pai, que havia assumido a direção da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), na capital Manaus.

Anos depois, foi justamente o caminho de volta que deu sentido à sua história. Desde 2012, quando passou a lecionar na comunidade após concluir a graduação em Pedagogia Intercultural, Josias divide a vida entre Parintins e Ponta Alegre. O deslocamento, no entanto, é custoso. Dependendo da época do ano, a viagem pode levar até cinco horas de lancha pelo rio Andirá.  Há uma década, Josias passa semanas longe do filho João Francisco e da esposa Francy, diretora de uma escola em Parintins. Já o seu enteado  Wesley, de 24 anos, também seguiu o caminho do magistério e atua como professor de matemática na aldeia.

A primeira graduação de Josias foi em Ciências Biológicas. Mas foi a formação em Pedagogia Intercultural que lhe permitiu retornar como professor à comunidade. Para ele, fortalecer a  educação de seu povo sempre foi uma prioridade. Nos últimos anos, porém, outro tema passou a mobilizar suas ações: a comunicação. Essa perspectiva o levou a apostar no projeto Rede Comunitária Floresta Digital:

“Quando a gente viu o edital, viu a proposta do projeto floresta digital, a gente viu a possibilidade de poder levar a nossa identidade, a nossa cultura, a nossa experiências para outras pessoas também conhecerem. A gente entende hoje que a comunicação é muito importante”, destacou Josias.

Além de biólogo e professor, Josias é presidente da Associação dos Kapi e das Lideranças Tradicionais do Povo Sateré-Mawé – KAPI. A organização atua na defesa dos direitos da comunidade e promove diferentes iniciativas voltadas ao fortalecimento do território, como a participação na Rede Comunitária Floresta Digital.

Uma das suas maiores preocupações é garantir a continuidade desse trabalho.  Por isso, investe na formação dos moradores de Ponta Alegre para que novas lideranças possam assumir, no futuro, a coordenação da associação e das ações desenvolvidas junto à comunidade.

Além de incentivar a visibilidade da cultura Sateré-Mawé por meio da comunicação, Josias também investiu na escrita. Ele é autor de três livros. Na sua primeira obra, Em Kapi: uma liderança clânica e afim, investiga as formas tradicionais de liderança de seu povo e analisa como conceitos externos  –  como a figura do “capitão”, introduzida durante a ditadura militar –  foram apropriados para estabelecer interlocução com a sociedade não indígena. A obra foi posteriormente traduzida para o francês.

Vieram depois outras publicações. Em Sateré-Mawé: Teatro dos Clãs, ele relata a forma como seu povo busca solucionar seus conflitos. Já em Português Intercultural, propôs um jogo de inversão: buscar as traduções produzidas por pesquisadores não indígenas para discutir os limites dessas interpretações a partir da perspectiva de um falante da língua Sateré-Mawé:

“Se antes os pesquisadores pesquisavam o Sateré-Mawé, eu fui pesquisar os artigos deles.”

Em meio a distância da família, longas viagens, o ensino, a pesquisa e a atuação como liderança, Josias busca contribuir para a educação, memória,  fortalecimento  e visibilidade do seu povo. Seu trabalho busca abrir caminhos para garantir que as novas gerações Sateré-Mawé possam continuar contando sua própria história.