”Eu gosto de brincar com as palavras, com as letras”. Quem diz isso é Creuza Miranda, nascida e criada no quilombo do Curiaú, localizado em Macapá, no Amapá. Poetisa, dançarina e compositora de batuque, ela carrega a arte e cultura nas veias. Filha de cantadores de batuque e marabaixo, foi com os pais que aprendeu a valorizar a cultura de seu território e assumiu a missão de perpetuar essa tradição para as novas gerações:
“Eu tenho três filhos, eles também interagem dentro dessa cultura, sabem tocar marabaixo, sabem tocar batuque, cantam, dançam. Então, eu sempre mantive isso dentro da família, já herdando do meu pai e da minha mãe essa consciência, para que a nossa cultura não possa morrer”.
Batuque e Marabaixo são ritmos tradicionais de resistência negra muito presentes nas comunidades afro-brasileiras, especialmente no Amapá. Eles conjugam percussão, dança e canto. Creuza explica que as músicas no batuque são chamadas de bandaia e no marabaixo, de ladrão. Os cantos são uma forma de contar histórias do cotidiano de seu território:
“É a vivência da nossa comunidade, o que acontece dentro da comunidade, que a gente transforma em poesia e canta. Então é uma forma muito bonita da gente mostrar, cantar a nossa comunidade, mostrar o que nós temos.”
Creuza atua há muitos anos na área cultural e é integrante da Associação Mãe Venina do Quilombo do Curiaú, da qual já foi, inclusive, presidente. Na organização dedica-se ao trabalho de fortalecimento das mulheres quilombolas. Muitas são dançarinas dos ritmos tradicionais, mas não se apropriaram dos instrumentos como pandeiros e tambores. Creuza quer estimular que elas também participem da percussão, ocupando mais espaços.
A atuação de Creuza, no entanto, não se limita à cultura. Ela também se dedica à preservação ambiental. O interesse pelo tema a levou a estudar Ciências Biológicas, curso no qual se formou recentemente. Atualmente, trabalha como guarda-parque em seu território, que é uma área de preservação ambiental.
A vontade de compartilhar conhecimentos e aprender com os outros faz com que Creuza esteja sempre próxima de pessoas de diferentes gerações. Ela aposta na juventude de seu território para trazer inovação. Embora não seja muito afeita às tecnologias digitais, Creuza admite que são ferramentas importantes para dar visibilidade à cultura, tradição e suas produções locais:
“Sem a tecnologia, a gente não vai conseguir avançar, a gente não vai conseguir vender os nossos produtos, mostrar os nossos produtos. Então, para isso, elas (as mulheres jovens) têm que estar junto da gente”.
É na união entre diferentes gerações que Creuza deposita a esperança de que essa tradição continue viva. Para ela, as tecnologias digitais podem ser uma aliada nesse processo de valorização, divulgação e sustentação da cultura e renda em seu território.

