Na Aldeia Vista Alegre do Capixauã, em Santarém (PA), juventude indígena fortalece a comunicação comunitária e a memória do território
Aos 19 anos, André Lopes de Melo já carrega a responsabilidade de fortalecer a comunicação em seu território. Morador da Aldeia Vista Alegre do Capixauã, em Santarém, no oeste do Pará, ele integra a nova geração de comunicadores indígenas que têm transformado a forma como suas comunidades se vêem e são vistas.
Indígena do povo Kumaruara, André começou sua trajetória na comunicação ainda aos 14 anos, quando teve seu primeiro contato com o audiovisual. Desde então, a comunicação deixou de ser apenas uma curiosidade e se tornou uma ferramenta de transformação.
“Eu era um jovem muito tímido, muito fechado. Mas através das formações e das trocas, comecei a entender que a gente não precisa ter vergonha de ser quem a gente é, nem de falar sobre o nosso território”, conta.
Hoje, ele faz parte de um coletivo de comunicação dentro da aldeia, que vem se fortalecendo a partir de processos formativos em mídias comunitárias. O grupo reúne jovens que atuam em diferentes linguagens, como audiovisual, fotografia e áudio, e já começa a se organizar de forma autônoma para desenvolver novos projetos.
Uma das principais iniciativas em construção é a criação de uma rádio comunitária, que deve servir como espaço de escuta e expressão para a comunidade. A proposta inclui também a produção de podcasts, trazendo temas relevantes para o território e convidando lideranças e jovens de outras comunidades para compartilhar experiências.
“A gente quer falar sobre o que é importante pra nós, trazer nossas falas, nossos temas. E também se conectar com outros territórios, trocar conhecimento”, explica.
Além da produção contemporânea, André destaca a importância da comunicação como ferramenta de preservação da memória. Para ele, registrar os saberes dos mais velhos é uma urgência.
“Cada idoso que parte é como uma biblioteca que se fecha. A gente precisa valorizar, escutar, aprender e registrar esses conhecimentos para não esquecer”, afirma.
Esse olhar conecta passado e futuro. Ao mesmo tempo em que se apropria das tecnologias, André defende a valorização das práticas tradicionais, da cultura alimentar e dos saberes medicinais do povo Kumaruara.
A trajetória na comunicação também está diretamente ligada ao fortalecimento do território. Em 2020, junto com outros jovens, André começou a produzir conteúdos que deram mais visibilidade à aldeia. Mesmo com a saída de alguns colegas para estudar ou trabalhar fora, ele permaneceu, mantendo viva a comunicação local.
“Hoje, praticamente, a comunicação da aldeia sou eu que faço. Mas agora, com mais jovens chegando, eu sei que isso vai mudar. A gente vai conseguir fazer muito mais juntos.”
Para André, a comunicação é também uma estratégia de sustentabilidade. Ele aponta o turismo como uma das principais fontes de renda da comunidade e vê na produção de conteúdos uma forma de valorizar e divulgar o território.
“Mostrar o que a gente tem, nossa cultura, nossa natureza, isso também fortalece o território.”
Com os pés no presente e os olhos no futuro, ele segue construindo caminhos. Entre seus sonhos estão concluir os estudos, se aprofundar no audiovisual e formar novos jovens comunicadores.
“Eu quero formar outros jovens, compartilhar conhecimento, fortalecer nossa cultura e nosso território. A gente aprende e também ensina. É assim que a gente cresce junto.”
A trajetória de André mostra como a comunicação comunitária pode fortalecer territórios, conectar gerações e ampliar vozes historicamente silenciadas. A partir da Aldeia Vista Alegre do Capixauã, novas narrativas seguem sendo construídas, com a juventude no centro desse processo.

