Durante muitos anos Carla Pereira sonhou cursar graduação em uma Universidade pública brasileira. Na prática, porém, precisou inverter algumas etapas do caminho: antes de conquistar uma vaga para cursar licenciatura em Educação do Campo no Instituto Federal do Pará (IFPA), já exercia o papel de educadora, trabalhando com crianças e jovens.
“Entre cursos tecnicistas e cursinho popular fui me forjando em busca do acesso ao ensino superior gratuito pois a lei de cotas ainda não existiam.”
Carla oferecia aulas de tecelagem com fibras naturais para crianças e jovens e, por meio do programa Mais Educação, trabalhou com turmas do Ensino Fundamental ensinando a construir o instrumento percussivo Caxixi.
O interesse pela musicalidade vem de berço: seu pai era compositor de samba. Nascida na ilha de Mosqueiro, distrito de Belém (PA), Carla também é filha de assentada da reforma agrária. Além de atuar na educação, trabalhou durante dez anos como operária artesã em fábricas.
Em busca de trabalho, Carla se mudou para o estado de São Paulo em 1998, onde viveu por cerca de 17 anos. Lá, realizou diversos cursos voltados à agroecologia e à cultura popular e pôde desenvolver novas habilidades. Foi nesse período que ampliou seus conhecimentos e fortaleceu seu interesse por práticas formativas ligadas à preservação ambiental e à organização comunitária.
Em 2015 retorna ao Pará e antes de concretizar seu sonho da graduação, aproximou-se das formações promovidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foi durante um encontro de mulheres do movimento que iniciou sua caminhada militante. Atualmente, vive no assentamento João Batista, onde contribui ativamente para o fortalecimento das expressões culturais no território. Entre as iniciativas das quais participa está o Projeto Colmeia Néctar, que promove a integração entre a comunidade e a escola, reunindo famílias, educadores e estudantes na organização da festividade do Boi Bumbá.
Durante esse período, Carla compartilha seus conhecimentos de artesã, ensinando a confecção de instrumentos musicais produzidos com materiais naturais, como maracás, caxixis, ganzás de embaúba e peças feitas com cuité. As atividades incluem também a realização do cordão do boi e de rodas de conversa que valorizam a troca de experiências e os conhecimentos tradicionais.
Para Carla, essas ações representam uma oportunidade de difundir a musicalidade crítica, que segundo ela: “é capaz de estimular a capacidade dos sujeitos para além do que nos é imposto”.
A paixão pelos instrumentos confeccionados com materiais naturais segue orientando sua atuação. Entre diversos projetos, oficinas e cursos voltados à formação musical e á preservação ambiental, Carla permanece comprometida com o projeto político da organização da qual faz parte – MST -, “em busca da autonomia dos nossos companheiros”

