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Na Aldeia Vista Alegre, uma cacica lidera o território e gere o turismo de base comunitária

Nas margens do Rio Tapajós, no Pará, uma mulher lidera a aldeia indígena Vista Alegre do Capixauã. Conhecida como Cacica Irenilce, ela representa seu território e também é uma das responsáveis pela gestão do turismo de base comunitária realizado pela comunidade.

Irenilce é a primeira mulher a se tornar cacica em seu território. Ela ocupa essa função há nove anos e conta que já enfrentou muitas dificuldades:

“Então, para mim foi um grande desafio, enquanto mulher cacique, né? Mesmo porque a gente antes não tinha aquela oportunidade… Mulheres não tinham oportunidade de estar no poder. E eu hoje digo para você que é um desafio, porque a gente sofria muito preconceito, por ser indígena. Mas a gente sempre fala aqui: se eu sou, ninguém vai dizer que eu não sou, né?”

Mas sua experiência com gestão e liderança começou antes de se tornar cacica. Irenilce já foi presidenta de time e do grupo de jovens .

Ela tinha 35 anos quando assumiu a liderança da aldeia e já está nessa posição há nove anos. Segundo ela, se não tivesse o apoio da comunidade, provavelmente não estaria mais exercendo essa função:

“Se eu não tivesse fazendo um bom trabalho, eles já tinham me tirado, né? Porque aqui a aldeia tem poder para fazer isso. Se você não faz um bom trabalho, a gente se reúne, tira e coloca outro. São nove anos, não nove dias. Em dezembro eu faço dez anos, se Deus quiser… nessa gestão.”

Além de ser uma liderança, Irenilce também atua na gestão da pousada Uka Surí. A ideia de trabalhar com turismo de base comunitária surgiu da própria cultura local. A etnia Kumaruara luta pela preservação de suas tradições, entre elas a dança do tipiti — artefato indígena usado para extrair o caldo da mandioca —, a dança do carimbó, tradicional do estado do Pará, e outros rituais próprios da etnia.

Irenilce conta que, no início, foram estimulados a trabalhar com turismo por um grupo de franceses que mantinha uma pousada próxima à aldeia. Eles tiveram que migrar para um barco depois que a região passou a fazer parte de uma reserva extrativista. Também receberam apoio do Projeto Saúde e Alegria, que apoia o turismo de base comunitária na região.

Além dos rituais e danças tradicionais, os turistas que se hospedam na pousada Uka Surí podem viver diversas experiências: tomar banho no igarapé, passear de canoa, fazer trilhas, conhecer a casa de farinha e o viveiro de mudas. Também se come muito bem durante a estadia. Irenilce, junto com outras mulheres da comunidade, fizeram um curso de culinária para adaptar os pratos tradicionais a um cardápio voltado para o turismo. 

O empreendimento enfrentou grandes desafios durante a pandemia, quando o turismo precisou ser interrompido. Mas, com alguns apoios, conseguiram atravessar esse período. Atualmente, a Aldeia Vista Alegre do Kapixauã integra a Rede Comunitária Floresta Digital e, com o acesso à conectividade, busca dar maior visibilidade aos seus empreendimentos — inclusive com a instalação de uma rádio web local.

Embora ocupe uma posição de liderança, Irenilce entende que o trabalho ecologicamente responsável deve ser compartilhado:

“Quem tem que cuidar da Amazônia somos nós. Quem quer a Amazônia de pé, somos nós.”