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Izabela Campos: uma ribeirinha pela agricultura sustentável e o bem viver.

Embora tenha vivido a infância e adolescência na cidade de Belém (PA), a agricultora Izabela Cunha acredita que a melhor opção para sua vida foi retornar para seu território de origem: a comunidade ribeirinha de Acará Açu (PA).

Aos 28 anos, casada e mãe de Heitor, de quase 2 anos, Izabela luta pelo desenvolvimento sustentável da comunidade ribeirinha onde nasceu. Mas nem sempre foi assim. Aos 15 anos, em plena adolescência, ela não recebeu bem a notícia de que sua família retornaria para o território. Acostumada com o agito da grande cidade, teve dificuldade para se adaptar a uma rotina diferente. Com o passar do tempo, apesar da resistência inicial, Izabela começou a conhecer outras possibilidades de modos de vida e logo descobriu que a mudança poreria seguir um caminho de realizações:

“Depois que eu consegui entender que a vida aqui, ela acontece, né? Porque quando eu vim de Belém, a minha minha ideia era que a vida aqui não rolava. A gente não vivia, a gente sobrevivia aqui. E quando eu chego aqui,  eu passo a conhecer realidades, ter acesso a  uma conversa, acesso à Pastoral da Juventude. Eu consegui até acesso a um estilo de vida que eu não conhecia. Então eu comecei a defender esse estilo de vida, né, a falar dele, a tentar fortalecer ele dentro da comunidade para que as pessoas, elas entendam que às vezes a solução não é sair daqui”.

Ao longo desses anos, ela atuou em diversas frentes que contribuíram para a construção de seu perfil de liderança comunitária. Além de trabalhar na Pastoral da Juventude, atuou como delegada Sindical no Sindicato Rural e dedicou-se à reativação da Associação de Moradores Padre Alberto Pirabon, entidade da qual foi presidente.

Aos poucos Izabela foi se apaixonando pelo modo de vida ribeirinho e se conectou com a agricultura. O contato com a agrofloresta, um modelo de produção alternativo à monocultura que conheceu no sítio de De Mendes, produtor parceiro de sua família, inspirou uma decisão: adotar esse sistema também em seu território:

“Eu passei dois dias lá e eu conheci mesmo, tive a oportunidade de andar, de ver como as coisas acontecem. E aí quando eu voltei para a comunidade, eu queria muito aquilo.”

Inspirada por essa vivência, em uma novena de Natal, Izabela fez uma promessa: iria se conectar mais com as plantas. Os sinais de que estava no caminho certo começaram a aparecer: ela recebeu copinhos com mudas de um amigo e iniciou seu processo de plantio. Convidou algumas famílias da comunidade. Nove toparam. E assim, o coletivo Agrofloresta Acará-Açu começou a se formar:

“E a gente passou a plantar do zero, colher a semente, fazer a muda e mudar a realidade dos nossos açaizais. Não acabar com os nossos açaizais, mas enriquecer com a biodiversidade, trazendo a biodiversidade, que era aquilo que se tinha antes.”

A venda de açaí é uma das principais fontes de renda da comunidade de Acará Açu. Izabela acredita que o cultivo do fruto deve ser mantido, mas ressalta a importância de preservar a  diversidade nos quintais. Nesse sentido, a  agrofloresta surge como uma solução. Com ela,  percebeu que era possível melhorar a qualidade de vida de forma sustentável, sem abrir mão da soberania alimentar. Hoje, seu quintal conta com batatas, ariá, açafrão, inhame, macaxeira, vagem e uma grande diversidade de frutas.

Izabela sonha que cada vez mais famílias da sua comunidade possam também viver essa realidade, com  acesso à saneamento básico, educação e à uma agricultura sustentável:

“Porque não existe qualidade de vida se você está bem e o outro está mal. A qualidade de vida, ela se dá num balanceamento, quando está todo mundo bacana, quando todo mundo está bem.”

Durante esses anos, a jovem agricultora e ribeirinha pode se conectar com seu território. Hoje, Izabela trabalha para que mais pessoas se unam pela preservação do local. Para ela, o futuro mais farto e o bem viver coletivo da comunidade é possível. É por isso que vai seguir lutando.

Foto de Isabela: Marcio Nagano