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O resgate da ancestralidade de Pidu Puyanawa por meio do artesanato

A artesã Pidu Puyanawa levou alguns anos e, algumas idas e vindas, para resgatar sua ancestralidade indígena. Filha de pai pernambucano e mãe indígena Puyanawa, ela viveu muitos anos em Rondônia antes de retornar ao território Puyanawa, no Acre. 

Pidu perdeu sua mãe, por câncer, quando tinha apenas 4 anos. Desde então, ela e dois irmãos foram criados apenas pelo pai. Ainda muito jovem, por condições financeiras, ela começou a trabalhar como doméstica em Porto Velho. 

Enquanto morava na capital, aos 14 anos, saiu em busca de uma de suas irmãs, que havia deixado a casa da família para escapar dos maus-tratos do padrasto, pai de Pidu. Nesse processo, ao entrar em contato com pessoas que conheciam seus parentes, descobriu que tinha outros irmãos e avós vivos no território Puyanawa, sua terra de origem.

Essa descoberta trouxe uma nova perspectiva para sua vida e, em 1994, após trocas telefônicas, seu irmão Samuel foi visitá-la em Rondônia. Foi um encontro emocionante, que fez Pidu  decidir viver no território indigena junto de seus irmãos e seus avós maternos.  

Ela conta que, naquela época, não havia energia elétrica, água encanada, nem televisão. Ainda assim, foi um dos períodos mais felizes e marcantes de sua vida. Isso aconteceu antes do processo de resgate da cultura indígena local, que havia sofrido um profundo apagamento ao longo dos anos em decorrência da colonização. Mesmo assim, muitas práticas e saberes tradicionais foram preservados e seguem presentes no modo de vida da comunidade.

“A gente não se pintava, não tinha artesanato, né? A gente vivia da pesca, da farinha, fiz muita farinha ainda com meu irmão, plantei bastante macaxeira. Pesquei muito de espinhel, comi muita caça, bastante caça, criei bastante bicho.”

No entanto, Pidu também viveu alguns contratempos nesse período. Após uma decepção com um de seus parentes, ela decidiu retornar a Rondônia para se juntar a sua irmã Meire, que havia ficado em Porto Velho. Foi quando enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida: a perda de sua irmã, que assim como sua mãe, também faleceu de câncer, aos 29 anos, deixando 3 filhas. 

O que tornou tudo mais desafiador foi acompanhar a doença de sua irmã enquanto levava sua primeira gestação. Com o tempo, foi processando o luto enquanto criava seu primeiro filho. A relação com o artesanato nasceu nesse período, quando trabalhava como auxiliar de classe em uma instituição: aprendeu a fazer biojóias com sementes.  

As circunstâncias da vida a levaram de volta à aldeia Puyanawa após a pandemia de Covid-19. Com o apoio de seu irmão e por meio do trabalho espiritual realizado por seu povo com as medicinas da floresta, Pidu diz ter passado por uma profunda transformação. Reconectou-se com suas origens e firmou seu compromisso com a preservação da arte e da cultura de seu território.

Foi nesse período que conheceu o tear e a arte da tecelagem tradicional. Logo começou a produzir suas próprias peças. O artesanato indígena se tornou uma de suas paixões, cheia de significados: 

“É como se tivesse um pedacinho meu levando uma alegria para alguém, sabe? É como se fosse um pedacinho da minha história indo junto. A história de uma nova pessoa, de uma nova mulher.”

Hoje, Pidu é mãe de quatro filhos: um homem e três mulheres, sendo uma delas filha adotiva.E essa nova mulher continua movida pela vontade de aprender. Atualmente, participa do projeto Rede Floresta Digital, onde estuda marketing digital, desenvolve planos de negócios, faz curso de inglês e busca ampliar seus conhecimentos. Com os olhos voltados para o futuro, Pidu segue tecendo caminhos com sua arte e busca contribuir para o fortalecimento de sua comunidade.